A criança autista ainda não fala: esse precisa ser o primeiro objetivo da terapia?

Quando uma criança autista ainda não fala, é muito comum que essa seja a principal preocupação da família e também o primeiro objetivo que os pais imaginam para a terapia.

Quando uma criança autista ainda não fala, é muito comum que essa seja a principal preocupação da família e também o primeiro objetivo que os pais imaginam para a terapia. Afinal, conseguir ouvir um pedido, uma resposta ou uma palavra nova costuma representar uma mudança muito concreta no dia a dia.

Mas definir prioridades terapêuticas exige um olhar um pouco mais amplo. Antes de decidir que a fala precisa vir primeiro, precisamos compreender como essa criança se comunica hoje, o quanto entende do que acontece ao seu redor e quais dificuldades estão interferindo de forma mais significativa na sua participação e na sua autonomia.

Antes de escolher um objetivo terapêutico, é importante compreender como aquela criança se comunica e participa das situações do dia a dia.

Imagem gerada por inteligência artificial

Falar e se comunicar não são exatamente a mesma coisa

A linguagem oral é uma forma muito importante de comunicação, mas não é a única informação que observamos durante uma avaliação.

Uma criança que ainda não fala pode apontar para o que deseja, buscar um adulto, direcionar o olhar, utilizar gestos, sons ou outras estratégias para tentar ser compreendida. Entender como essas iniciativas aparecem ajuda a avaliar o que ela já construiu e quais habilidades ainda precisam de mais apoio.

Em alguns casos, o desenvolvimento da fala realmente estará entre os primeiros objetivos. Em outros, pode ser necessário trabalhar ao mesmo tempo aspectos relacionados à compreensão, à intenção comunicativa, à interação ou a outras habilidades que dão suporte para que essa comunicação avance.

A pergunta deixa de ser apenas “como fazer essa criança falar?” e passa a incluir algo maior. Como podemos ampliar as possibilidades que ela tem de se comunicar e participar da própria rotina?

Como definimos o que precisa ser prioridade?

É justamente a avaliação que ajuda a organizar essa resposta.

Existem crianças para quem a comunicação representa a necessidade mais urgente naquele momento. Em outros casos, a dificuldade que mais interfere na rotina pode estar na autonomia, na compreensão da linguagem, na interação com outras pessoas ou até na participação em atividades básicas do cotidiano.

Também existe uma parte dessa avaliação que nenhum teste substitui, que é entender a realidade daquela família. Saber o que está mais difícil em casa, quais situações preocupam os pais e quais mudanças poderiam fazer diferença no cotidiano traz informações importantes para a construção do plano terapêutico.

Não estamos escolhendo apenas uma habilidade para desenvolver. Estamos tentando entender qual objetivo pode gerar um impacto mais relevante para aquela criança naquela fase.

O plano terapêutico precisa considerar a avaliação profissional e aquilo que a família observa na rotina da criança. 

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Nem tudo precisa ser trabalhado com a mesma intensidade

Uma avaliação pode identificar diversos pontos que precisam de atenção, mas isso não significa transformar todos eles em prioridade ao mesmo tempo.

O plano terapêutico pode organizar objetivos de curto e longo prazo, considerando o que precisa receber mais investimento agora e aquilo que poderá ganhar espaço conforme a criança avança.

Esse cuidado também ajuda a evitar uma rotina cheia de intervenções que não necessariamente estão conectadas entre si. Mais horas de terapia ou uma lista maior de objetivos não garantem, sozinhas, um acompanhamento mais adequado.

Precisamos saber o que estamos buscando com cada intervenção e qual função aquele objetivo ocupa na vida da criança.

A família faz parte dessa escolha

A decisão sobre quais terapias indicar e quais objetivos priorizar precisa ser construída junto com a família e com os profissionais envolvidos no acompanhamento.

Os pais conhecem situações que dificilmente aparecem da mesma maneira dentro de uma avaliação. Eles sabem como a criança se comunica em casa, o que consegue fazer com mais independência, em quais momentos precisa de mais ajuda e quais dificuldades acabam pesando mais na rotina.

O olhar profissional entra para organizar essas informações junto aos dados da avaliação e transformar tudo isso em objetivos terapêuticos possíveis, levando em conta tanto as necessidades atuais quanto aquilo que esperamos construir ao longo do desenvolvimento.

E a prioridade pode mudar

O plano terapêutico não precisa permanecer igual durante todo o acompanhamento porque a própria criança também muda.

Uma habilidade que hoje exige bastante investimento pode evoluir e abrir espaço para novos objetivos. Algumas prioridades deixam de fazer sentido, outras aparecem e determinadas estratégias precisam ser revistas conforme a criança responde às intervenções e enfrenta novas situações na rotina.

A fala pode, sim, ocupar um lugar muito importante nesse processo. O cuidado está em não defini-la automaticamente como primeiro objetivo apenas porque é a dificuldade mais visível para os adultos.

Antes disso, precisamos entender o que aquela criança precisa para conseguir se comunicar melhor, participar mais e avançar com maior autonomia dentro da vida que ela realmente vive.

Se você pudesse escolher um objetivo como prioridade na rotina da criança hoje, qual seria?

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Até breve!